Cuidar a autoestima do fumante também é parte do tratamento: o fim da culpa ao parar de fumar
Por que proteger a confiança do paciente é tão importante quanto o próprio tratamento, e por que fracassar não significa falta de força de vontade
Você não é fraco.
Provavelmente só tentou parar de fumar no pior momento da sua vida.
Durante mais de trinta anos ouvi milhares de histórias. Algumas terminavam em sucesso; outras, com uma nova tentativa frustrada. No entanto, com o passar do tempo, entendi que o verdadeiro problema não era que muitas pessoas voltassem a fumar. O que realmente me preocupava era o que acontecia depois desse fracasso.
1Cuidar a autoestima do fumante é tão valioso quanto parar de fumar
A maioria saía convencida de que tinha falhado por falta de força de vontade. Ouvi frases como "não sirvo para isso", "sou fraco demais", "todo mundo consegue, menos eu". Cada uma dessas palavras deixava uma ferida muito mais profunda do que a própria dependência do cigarro. O cigarro podia se apagar, mas a culpa permanecia por anos.
Foi então que entendi que meu trabalho não consistia apenas em ajudar uma pessoa a parar de fumar. Eu também precisava proteger algo muito mais valioso: a autoestima dela. Porque, quando um fumante perde a confiança em si mesmo, o dano pode se estender muito além do tabaco. Pode afetar a forma como enfrenta novos desafios, a segurança com que toma decisões, a relação com a família, o trabalho e até a imagem que tem de si mesmo.
"Cuidar a autoestima do fumante também é um objetivo terapêutico."
A partir desse momento, adotei uma convicção que nunca abandonei. Não aceito que um tratamento, por mais bem-intencionado que seja, acabe convencendo o paciente de que ele é incapaz. Minha obrigação como médico é exatamente o contrário: proteger a confiança dele enquanto buscamos juntos o melhor caminho para abandonar definitivamente o cigarro.
2Você não é fraco; provavelmente só tentou parar de fumar no pior momento da sua vida
Muitas pessoas chegam à consulta convencidas de que não têm força de vontade. Eu geralmente não começo falando de nicotina nem de medicamentos. Primeiro, tento entender o que estava acontecendo na vida da pessoa quando ela decidiu parar de fumar. Poucas vezes encontro uma história simples. Há separações, problemas financeiros, doenças próprias ou de um familiar, perdas afetivas, conflitos no trabalho ou um acúmulo de preocupações que consome toda a energia emocional disponível.
Nessas circunstâncias, parar de fumar deixa de ser simplesmente abandonar um hábito. Vira uma exigência enorme para um organismo que já está lutando para se manter em equilíbrio.
"Ninguém pediria a um náufrago para soltar o único colete salva-vidas no meio da tempestade."
É exatamente isso que muitas vezes acontece quando um fumante tenta abandonar o cigarro enquanto atravessa uma das fases mais difíceis da vida. O problema não é a falta de força de vontade. O problema é o momento escolhido. Por isso desenvolvi o conceito de Timing para a cessação do tabagismo. O Timing não significa esperar indefinidamente nem procurar uma desculpa para adiar a mudança. Significa reconhecer que existe um momento em que a pessoa volta a ter estabilidade emocional suficiente para que o tratamento tenha muito mais chances de sucesso.
Quando você entende isso, a culpa começa a desaparecer. Você deixa de ver o passado como uma coleção de fracassos pessoais, e passa a vê-lo como tentativas feitas quando as condições simplesmente não eram as adequadas.
3Antes de ajudar você a parar de fumar, quero evitar que perca a confiança em si mesmo
Há uma ideia que nunca aceitei como médico: que um paciente saia de um tratamento se sentindo pior consigo mesmo do que quando começou. Se uma tentativa fracassa e a única conclusão que o fumante tira é "eu não consigo", o problema deixa de ser só o cigarro. Essa sensação de incapacidade pode começar a se infiltrar silenciosamente em outras áreas da vida.
Já vi pessoas deixarem de confiar na própria capacidade de cumprir projetos, abandonarem objetivos importantes ou se sentirem envergonhadas diante da família porque prometeram parar de fumar e não conseguiram. Nenhum tratamento deveria causar esse dano quando isso pode ser evitado.
"O problema não é a falta de força de vontade. O problema é o momento escolhido."
Por isso insisto tanto em cuidar da autoestima durante todo o processo. Não preciso pressionar ninguém a parar de fumar hoje mesmo. Preciso ajudar a pessoa a entender sua situação, fortalecer sua confiança e preparar o terreno para que, quando chegar o momento certo, a decisão tenha muito mais chances de se tornar um sucesso definitivo.
Às vezes o melhor ato médico não é dizer "comece hoje", e sim dizer "ainda não é o momento; primeiro vamos cuidar de tudo o mais". Essa frase pode parecer um atraso, mas muitas vezes é a melhor forma de proteger o futuro do paciente. Meu objetivo nunca foi somar tentativas. Meu objetivo é aumentar as chances de sucesso evitando novas feridas emocionais que depois são muito mais difíceis de reparar do que a própria dependência da nicotina.
4O melhor tratamento nem sempre começa hoje; começa quando você volta a assumir o comando da sua vida
Depois de tantos anos dedicados exclusivamente à cessação do tabagismo, cheguei a uma conclusão que mudou minha forma de acompanhar cada paciente. O sucesso não depende só do tratamento escolhido. Também não depende exclusivamente da quantidade de cigarros que uma pessoa fuma, nem do grau de dependência física. Na maioria das vezes, depende do momento em que a pessoa decide iniciar esse caminho.
Quando o estresse deixa de comandar cada decisão, quando a vida recupera um mínimo de estabilidade e quando a pessoa volta a sentir que tem capacidade de decidir por si mesma, surge uma oportunidade extraordinária. Esse é o momento que chamo de Timing. Ali o tratamento deixa de lutar contra a vida do paciente e passa a trabalhar a favor dela.
"Quando a culpa desaparece, a confiança volta."
Por isso, nunca vou medir o valor de uma pessoa por uma tentativa fracassada. Minha obrigação como médico é proteger a autoestima dela, ajudá-la a entender que não é fraca e lembrá-la de que um fracasso nunca define quem ela é. Define apenas que aquele não era o momento certo. Sempre digo aos meus pacientes que o objetivo não é parar de fumar em qualquer dia. O objetivo é parar de fumar no dia em que as chances de sucesso forem maiores e o processo não deixar uma nova ferida emocional. Porque quando a culpa desaparece, a confiança volta. E quando a confiança volta, o tratamento deixa de ser uma luta contra si mesmo e passa a ser o começo de uma nova etapa.
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Cuidar a autoestima do fumante também é parte do tratamento. E, muitas vezes, é o primeiro passo para voltar a acreditar que parar de fumar é sim possível.
STOPCIGARROS.COM DR. HUMBERTO PALLARES
Criador do conceito Timing para a Cessação do Tabagismo
STOPCIGARROS.COM DR. HUMBERTO PALLARES