Por que às vezes preciso fumar e em outros momentos nem lembro que existe cigarro?
O contexto pode explicar por que você passa horas sem pensar em cigarro e, de repente, uma situação parece trazer ele de volta pra sua cabeça
30 anos ajudando a criar novos ex-fumantes
Se você consegue passar horas, uma manhã inteira ou até certos dias sem pensar muito em fumar, mas aparece uma discussão, uma reunião, uma bebida, determinada pessoa ou um momento de estresse e do nada você precisa de um cigarro, isso não é uma contradição. Existem fumantes em que certas situações da vida pesam muito mais do que qualquer contagem simples de cigarros por dia.
NEM TODO CIGARRO COMEÇA COM NICOTINA. MUITOS COMEÇAM COM UMA SITUAÇÃO.
A isso eu chamo de Fumante Contextual. Não quer dizer que a nicotina não importe. Quer dizer que o cérebro também aprende associações: certos lugares, pessoas, emoções e rotinas acabam funcionando como um sinal que coloca o cigarro de volta entre as opções. O fumante não vive dentro de um laboratório. Vive dentro da própria história.
POR TRÁS DE MUITOS CIGARROS TEM ALGO QUE ACONTECEU LOGO ANTES.
Por que consigo passar horas sem fumar e de repente preciso de um cigarro?
Talvez você já ficou num avião por muitas horas, dentro de um cinema, numa reunião onde não dava pra fumar, ou simplesmente ocupado com algo que tomava toda sua atenção. E você não estava pensando em cigarro a cada cinco minutos. Depois você saiu, o contexto mudou, e a vontade de fumar apareceu quase na hora.
Isso deveria levantar uma pergunta bem simples: se a nicotina estava faltando o tempo todo, por que a vontade não tinha sempre a mesma intensidade? A resposta não pode se resumir a quantos cigarros você fuma. Também importa onde você está, o que está fazendo, o que espera que aconteça e se fumar entra ou não entre as opções possíveis naquele momento.
O CÉREBRO NÃO APRENDE SÓ A FUMAR.
APRENDE TAMBÉM QUANDO, ONDE E COM QUEM ESPERAR UM CIGARRO.
Aí entra a neurociência aplicada à vida real. O Córtex Pré-Frontal participa da decisão e do controle; a Amígdala entra em ação quando uma situação ganha carga emocional; a memória aprende associações. Mas saber o nome dessas estruturas serve de pouco se depois a gente não observa o que estava acontecendo na sua vida bem antes de você acender aquele cigarro.
O problema nem sempre é que "você não consegue ficar sem fumar". Às vezes existem situações bem concretas em que o seu cérebro aprendeu a esperar que você fume.
Por que eu volto a fumar sempre nas mesmas situações?
Talvez você tenha ficado dias sem fumar e estava bem, até aparecer aquele jantar, aquela pessoa, uma discussão em casa, um dia especialmente difícil ou uma saída com bebida. E depois você pensou: "Sempre acontece a mesma coisa comigo." Essa frase é muito mais importante do que parece, porque "sempre a mesma coisa" quer dizer que provavelmente existe um padrão.
O fumante costuma lembrar da recaída como uma derrota pessoal: "de novo eu não consegui". Mas olhando melhor, muitas vezes ele não fracassou em todas as situações. Fracassou numa bem específica. E quando várias recaídas acontecem em cenários parecidos, o problema deixa de ser só "falta de força de vontade" e começa a mostrar uma associação aprendida que vale a pena identificar.
Aí nasce o que eu chamo de "biografia do fracasso". Depois de várias tentativas, a pessoa acumula lembranças dos dias em que voltou a fumar e passa a usar isso como prova de incapacidade: "eu já sei como isso termina". Mas existe outra memória que quase nunca pedem pra ela resgatar: a de todas as situações que ela resolveu sem fumar.
"Uma recaída pode te mostrar onde está o problema. Não precisa virar uma sentença sobre quem você é."
E ainda tem algo mais importante. Antes de começar a fumar, você também ficava com raiva, se entediava, se apaixonava, discutia, perdia coisas, sofria e tomava decisões. O cigarro não estava entre as opções e de algum jeito você resolvia. Hoje você não é mais aquela pessoa jovem: tem décadas de experiência, de problemas superados e de recursos que antes nem existiam.
Por que o estresse pode me fazer pensar em fumar mesmo depois de eu já ter decidido parar?
Uma coisa é decidir parar de fumar sentado tranquilo, outra bem diferente é receber uma notícia ruim, discutir com alguém, ter um problema financeiro ou chegar exausto depois de um dia interminável. Nesses momentos nem sempre aparece uma reflexão elaborada. Aparece o que já é conhecido. E se durante anos o cigarro esteve ligado ao alívio imediato, o cérebro pode trazer ele de volta antes de você terminar de pensar o que fazer.
Por isso não basta dizer pra alguém "você precisa ter força de vontade". Quando o cérebro está carregado de estresse, culpa, cansaço e preocupação, pedir pra ele funcionar igualzinho a um dia tranquilo é ignorar a realidade humana. O verdadeiro Timing também é reconhecer quando existem recursos psicológicos disponíveis pra sustentar uma decisão.
Mas existe uma diferença enorme entre te preparar pra viver cada situação como uma ameaça e te ensinar a reconhecer algo que você já sabia fazer. Se cada problema aparece como "cuidado, aqui você pode recair", o cigarro volta a ocupar um lugar na cena. Se o problema aparece simplesmente como algo que você precisa resolver, você recupera o protagonismo.
"Eu não quero que você aprenda a resistir a um cigarro toda vez que aparecer um problema. Quero que você volte a resolver o problema sem o cigarro fazer parte das opções."
A diferença psicológica é enorme. Quem vive cada situação como ameaça acaba pensando na próxima ameaça. Quem atravessa uma situação difícil e descobre que conseguiu resolver sem fumar passa a dizer algo completamente diferente: "Isso eu já sei resolver."
Aí a neurociência deixa de ser uma coleção de neurotransmissores e volta a cumprir uma função clínica: nos ajudar a entender como um comportamento foi aprendido, em quais contextos ele reaparece e como fazer o cigarro perder de novo o lugar que um dia conquistou.
"A experiência de vida também é remédio."
Criador do conceito Timing para a Cessação do Tabagismo
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